sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Falso poema noturno
O vale, árvores, pinheiro
Passos gigantes
Luzes, cheiros, o som na ladeira
Escutaram
Escutaram
O mato, um que descia
Lento.
Inteiro o passo,
Aço feito.
Escutaram pessoas,
A noite caía.
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Docemente
Bonita a homenagem ao genio da raca no Loronix, com diversos depoimentos de gente boa.
Exatamente um mes depois do meu ultimo post, mais uma pequena memoria.
Saudades...
sexta-feira, 18 de julho de 2008
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Um silêncio de saudade
Nada de deserto não,
Nem areia nem mar
Entrei no silêncio
Sem livro, sem sal
Andei em silêncio
E me ouvi surdo
Imaginei:
Em terra onde todos escutam
Eu, surdo, sou Rei
Eterna beleza, imprevissível sutilieza
Harmonias, híbridas revelações
Reverberações rítmicas, rimas, saudações
Cancionero do passado
Mar de palavras
Adversário de máquinas, ventos, risadas
Eterno imaginado
Amigo do sonho
Limite da palavra
Silêncio-som
Silêncio-pássaro
Silêncio-árvore
Silêncio-bom
Silêncio-não
Leitos e margens
Águas
Silêncio, som
quarta-feira, 7 de maio de 2008
Fados e tragos
domingo, 9 de março de 2008
Conservamos nomes desnudos
sou um eco
uma fenda
um espaço
Duro
sou macio
uma lenda
um cansaço
Fraco
sou forte
um grito
um espasmo
Mato
sou pedra
um edifício
um bagaço
Mar
não escuto
um buraco
uma foz
Silêncio
uma areia
uma areia,
um grão de areia
Estrondo
uma ave
asas, asas, asas
Palavra
sem memória
palavra
Verbo
mas não movo
um abismo
oquicidade...
segunda-feira, 3 de março de 2008
Domingo, 2h56 am
Pressinto uma insônia e evito deitar
Sei que amanhã talvez passe
Talvez não
É um medo intransitivo,
Com tempo e espaço indefinidos
Um medo sem saber-se medo
Fraco como um dia de domingo
Não vi minha mãe, não falei meu amor
Fui ao cinema ver um suspense
Andei o fim de tarde ausente
Sozinho, sem destino.
Fiquei com medo de não poder escrever
De não encontrar o livro certo
E não ler
Mas tenho calma, a inércia não me faz sonhar
Ouço ao longe o barulho de uma estrada
Que não há
Casas vazias, corpos vazios
O cheiro do mato molhado
Que não há
Queria apenas um afago,
Queria poder chorar
Queria teus braços largos
Talvez o som do mar
Me sinto tão ausente
Queria te encontrar
Ouvir um qualquer coisa,
Sentir teu peso,
Te cheirar
(Serei sempre igual,
Eu mesmo e os meus medos?)
Fecho os olhos e caminho
Nessa quadra não tem uma estrada
Mas eu sigo sentindo
Silêncio!
É fiel a madrugada...
Amanhã talvez tire as roupas do varal
Talvez a água tenha inundado o banheiro
E chame o encanador
Acendi o cigarro e fiquei com medo
De ser apenas o primeiro
Porque mesmo tanto medo?
Um Pessoa
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.
Álvaro de Campos
domingo, 2 de março de 2008
Reflexão
Era só uma luz e ninguém se aparava
Laranja como a tarde;
Resplandece, mas não arde
Vazio debaixo, na calçada
Espero um não-sei-o-quê
Acho que vem,
Sinto todos superfície e nada
Já olhei para trás
Uma relva, um capim, um chão batido
Chá de cheiro de mato
A areia no pé com as costas queimadas
Senti um frio no peito e percebi
A luz que batia na sacada
Não me esquentava nem queimava
A madeira escura continuava ali,
Pessoa nenhuma sentada
Paris, fragmentos
Um passeio no parque. Folhas secas, um lago. Uma amiga, um chatô.
Vento; frio?
Luz branca e nuvens. Segredos e distância. Nos aproximamos tão lentamente.
A cidade é grande e seus olhares infinitos. Esculturas douradas, passeios em movimento.
Tentamos pegar uma bicicleta e não conseguimos, como deve ser bom pedalar em Paris.
Cheiros de metrô, um tempo morto corre ali dentro em uma viagem qualquer. Mãos, pés. Esperando algum acontecimento.
Um museu contemporâneo, uma tarde morrendo. Sol detrás das torres sacras de Paris e uma cor me emociona.
Um rio tão grande, água intransponível. Pontes e cigarros, alguém quase foi atropelado.
Não vi a torre. Mas quem se importa? Do alto da escada de uma tal Sacre Coeur um grupo improvisado cantava la la la la, la bamba.
Eram todos turistas e um padre sentado no fundo da igreja pensava no tempo morto.
Santa Teresa? Aonde o menino de chinelo? Vi uma casa que me lembrou Botafogo.
Uma lua cheia não entrava pela janela do quarto. A luz era vermelha, e nada mais.
Ficamos felizes com um reggae. Que falta nos faz dançar! A cidade é mesmo fria e não importa se chove.
Cantamos num bar à noite e vimos as ninfeas. Pombos sujos nas praças e loucos na rua.
Na loja de discos, ouvimos 10 cds e não gostamos de nenhum. Havia um Deodato e compramos, e também um filme francês.
Não fui ao cinema e não sei falar francês. A Notre Dame é bonita e dá medo, demônios expelidos como bestas e santos que seguram suas próprias cabeças.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
Alguma coisa acontece...
São Paulo seus barulhos e suas músicas. Gris e cores. Tanto de si fala sua arquitetura, gritam os prédios e rangem as casas. Helicópteros e nuvens povoam o céu e no asfalto corta um vento frio ou quente. Japoneses, africanos, italianos. Judeus e cearences. Vida em paredes e janelas, debaixo de viadutos e em cima das calçadas. Vida na água suja da artéria vial, no congestionamento, semáforos e lombadas.

Vida são paulina, Santo Amaro, São Vicente, São Jorge, São Sebastião. Jardim Angela, Jardim Paulista, contrastes e distâncias. Santos e bandeiras. Índios exterminados e remanescentes. Esculturas urbanas, profusão estética. Risco de explodir periférico. Sambas, pagodes, uma grande orquestra. Pastel na feira, pizza, um parque. Ceagesp, mercado central, mercado de pinheiros.
Tom Zé, Antunes, Rita. Mario e Oswald, Tarcila, antropofágicos. Uma academia de box montada em baixo do viaduto, helipontos e favelas.
Eu vi uma exposição aqui em Madrid. E gostei.
Saudades

Madrid, 16 de fevereiro de 2008. 12 graus, acabando o inverno despontando a primavera. Novos caminhos e novas eras. Uma cidade em movimento; sons, cores, matérias, cheiros, formas. Ritmo? Uma cidade a pé, uma cidade metrô e ônibus. Huertas, La Latina, Tirso, Lavapiés. Alonso, Passeos, museus, conciertos, jazz, flamenco. Senhores e senhoras, pijos, modestos. Tapas e canhas. Dá igual y no hace falta. Uma cidade em movimento?
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
El negrón
O negão era Reinier, cubano simpático e um baixista versátil. Na noite anterior o havia visto ao vivo, no mesmo Circulo. Ao fundo e elegante, como suelen ser os anjos guias do jazz - os baixistas -, levava um latin jazz com atitude e muita personalidade. O pianista e compositor era Joschua Edelman, nova-iorquino erradicado em Madrid.
Tudo ía muito bem, uma xcelente apresentação de temas próprios de Joschua, que além de Reinier tinha um trompetista e um percussionista juntos no palco. O show andava de maneira agradável, sem muitas surpresas e sem aborrecimentos. Me animei quando, logo após apresentar uma versão curiosa em jazz latino para uma composição de Bach, o pianista - bem falador - apresentou um Mingus Era um tema divertido que começa com o trompete ronroneando e, como em uma trilha de pantera cor de rosa, acompanhamos o caminhar suspeito de um personagem misterioso. A composição é de uma de suas obras primas que mais me são familiar, Ah Hum ou Mingus Dinasty. Não me lembrei exatamente de qual, mas me fez divagar.
Mingus evoca um jazz místico em sua música, uma profundeza que chega ao épico p
asseando étnico, desenvolvendo mil e uma noites. Evoca o Duke Ellington de Caravan, viagens desérticas; harmonias, melodias, áfrica, arábia, Estados Unidos da América. Descendente de Africanos, Suecos, Chineses e Britânicos, Mingus liderou verdadeiras orquestras negras, fortes e agressivas, mas também leves. A leveza dos climas, ambientes, ipinoses. As caminhadas mágicas de cada instrumento como uma fuga. Uma cobra nos prepara o bote, uma sombra nos encanta, vamos de frenezi a êxtasi percorrendo silêncios, tempos, texturas.Depois de escutar Mingus Dynasty e Ah Hum percebi com minha alma - meu coração - que o jazz ia além de Miles Davis. Achei o que lhe faltava nas parcerias com Gil Evens, em Miles Ahead, Porgy and Bess e Sketches of Spain, discos que sempre me encantaram por suas construções temporais e espaciais mais elaboradas.

Um solo de Miles frente ao vibrato de big band no porto de George Gershwin me trazia ilusão de pertencimento, névoa, frio, o cheiro do mar. Mas muitas vezes (principalmente nos outros dois discos) sentia falta de agressividade e excesso de padrões nos arranjos da orquestra. Elaborados, eficientes, precisos. Perdiam força na explosão pois não destoavam, não repitiam. Envolviam o trompete mágico de Miles em uma cama bem tecida e macia, mas um pouco fria. Mais míticos, menos místicos.
Mingus, o baixista. Me presenteou com elegância e explosão, misticismo e riqueza. Me surpreendeu desde a primeira vez, um negão descendo a escada de metrô com um baixo de 5 metros entre os dedos.
Detalhe importante: vejam isso, por favor - Duke Ellington tocando Caravan
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Please send me a letter

Descobri Caetano quando comecei a amar. Quando fui à Bahia e senti saudades, quando passado o carnaval tinha um alguém pra chorar. A dulcíssima prisão do amor, vida real e de viés. Momentos de silêncio compartido, sábados e domingos.
Sua profundidade me morde. Ali dentro um Caymmi, memória marejal. Ali homenagem ao amor, a Vinicius, Tom, ao Rio. Tantas vozes Milton, Bethânia, Gal. Tantos acordes Gil. Ben, um ideal fonético estético e musical. Tanto frevo, carnaval, samba. Tantas saudades. Sampa, filhos de Gandi, Ilê Ayiê, Iansã, Itapuã, lagoa escura.
Uma homenagem à nossa geração, filhos dos filhos dos 50, 60. Cazuza, Rei Roberto. Dylan Zimmerman, Lennon, McCartney. Exílio, macumba, beira do mar. Sertão Rosas, estilo, música, poesia e rítmica. História de arte e Brasil, momentos de puro amor.
A língua que roça uma fruta madura, uma coca-cola em Copacabana. O pintor Paul Gogin e as luzes da baía de Guanabara. Um tango, um fado. Pessoa, rock and roll, concretismo sincopado. Tambores, guitarra. Homenagem à nossa memória.
Outras memórias

- 1486 - Cristóvão Colombo se apresenta em Córdoba - (Espanha) aos Reis Católicos, oferecendo seus serviços científicos e pesquisadores, como a nova rota às Índias.
- 1567 - Os portugueses, chefiados por Estácio de Sá, conseguem vencer a resistência dos franceses e Tamoios, no Rio de Janeiro (v. França Antártica).
Nascem
- 1866 - Euclides da Cunha, escritor brasileiro (m. 1909).
- 1916 - Chacrinha, radialista e apresentador de televisão (m. 1988).
- 1920 - Federico Fellini, diretor de cinema italiano (m. 1993).
Distância, sentido
Um presunto me fez sonhar
Gota de limão, manga, mar
Saudades, sorriso, som
Palavras, são?
Sem sentido, a língua
Fortaleza macia, fluxo ideal
Um presunto e sua gordura secular
Vermelho, branco
Limão, manga
Mar?
Igual no importa...
Uma saudade me fez chorar
domingo, 20 de janeiro de 2008
Noites brancas
cordas se abriam como resoante caixa
tinha na madeira um som agudo
uma folha estremece um ritmo soturno
é noite a madrugada
frio feliz de andar
soltando névoa pela boca
comprando um tempo e nada mais
indo assim com o vento
asas? que desejo?
flutuava branca e molhada,
ría e gritava
era branca e molhada,
dizia um não ser de coisas
branda, salgada
um siri mordeu o meu pé
não era nada
sábado, 19 de janeiro de 2008
Araçá Azul é brinquedo
Não é segredo
Araçá Azul fica sendo
O nome mais belo do medo
Caetano Veloso
Marejal

Xapengolão, surto de marejal
Alguém que vi de passagem
Numa cidade estrangeira
Lembrou os sonhos que eu tinha
E esqueci sobre a mesa
Como uma pêra se esquece
Dormindo numa fruteira
Milton Nascimento e Ronaldo Bastos







